Postagens

Mostrando postagens de junho, 2018

O dom

Enquanto Ana tomava seu café, pensava sobre o que tinha pra fazer durante todo o dia. Tinha relatório para entregar no trabalho, um artigo para a universidade, e ainda por cima tinha que arrumar tempo para almoçar com uma amiga, a quem estava ajudando a organizar a festa de aniversário que aconteceria no fim de semana. Ana seria uma pessoa comum, se não fosse por um pequeno detalhe: ela conseguia ver o tempo de vida das pessoas.

Começou aos 11 anos, depois de um acidente de transito em que sua família se envolveu, causado por um motorista que se distraiu enquanto dirigia, observando uma chuva de meteoros que acontecia naquela noite, e acabou acertando em cheio o carro em que Ana estava. Os pais sofreram alguns ferimentos leves, mas Ana acabou ficando em coma por duas semanas. Quando acordou, não lembrava do que havia acontecido, mas notou que conseguia ver umas chamas estranhas sobre a cabeças das pessoas. Falou para a mãe o que estava vendo, mas a enfermeira que estava junto disse que poderia ser alguma alucinação causada pela saída do coma e que, no máximo, em alguns dias ela voltaria ao normal. Porém os dias passavam e Ana continuava enxergando as chamas, sem saber do que se tratava, e percebeu que algumas pessoas tinham uma chama mais intensa que outras. Se queixou novamente, mas tendo ouvido da mãe que iria passar, decidiu não falar mais sobre isso.

No dia em que teve alta e estava prestes a voltar pra casa, Ana esperava seu pai na recepção do hospital, junto com sua mãe, quando do lado de fora, uma ambulância estaciona com as sirenes ligadas. Dela, enfermeiros saem apressados empurrando uma maca onde um homem, já idoso, estava deitado, e era acompanhado por sua família. Ao olhar para ele, Ana percebeu que a chama sobre ele estava muito fraca, e não conseguiu desviar o olhar curioso de criança daquela cena. Então, a chama se extinguiu. Os enfermeiros se agitaram pedindo passagem e sumiram corredor adentro, deixando os familiares do homem para trás. Enquanto esperavam, Ana ficou olhando para a porta por onde os enfermeiros haviam passado. Depois de alguns minutos, surge um médico para falar com a família, com a expressão séria, e informa que eles haviam feito o possível, mas o homem não havia resistido. E Ana, que prestava atenção na cena, entendeu o que tinha acabado de ver e o que eram aquelas chamas. Ao longo dos anos, Ana foi se tornando uma pessoa reservada. Era difícil criar laços com pessoas quando se sabia exatamente o quanto de vida restava nelas. Ainda assim, ela fez amigos, e jurou a si mesma fazer o possível para ignorar as suas chamas, mesmo sendo isso uma tarefa praticamente impossível.

Depois de uma manhã corrida no trabalho, Ana foi ao encontro de sua amiga, que estava empolgada com o aniversário que se aproximava. Ela falava dos detalhes, de onde devia ser enquanto Ana ia anotando sem muita empolgação. A amiga não conseguia entender como Ana era tão desligada para festas e aniversários, e quando Ana dizia que era porque cada dia que se passava, era um dia mais próximo da morte, a amiga respondia que Ana devia ser mais otimista, e aproveitar cada dia de forma única. Ana bem que tentava, mas era complicado de se fazer isso quando só o que ela enxergava em sua frente eram bombas-relógio rumo a explosão.

O fim de semana chegou, e com ele a festa da amiga de Ana. Ela era uma daquelas pessoas que era querida por todas, então, o lugar estava cheio de gente, bebendo, dançando e conversando. Quando Ana chegou, já foi direto pro bar, pediu uma vodka, e pensou que já estava ali, ia aproveitar pra beber. Algumas doses e vários caras babacas depois, Ana estava decidida a ir embora, quando chega sua amiga com o namorado e um amigo dele. Ana tomou um susto quando o viu: não havia chama alguma sobre ele, e ainda assim ele estava lá, de pé, segurando um copo enquanto observava a movimentação das pessoas. Então ele percebeu o olhar de espanto e perguntou se havia algo de errado com ele. Ela respondeu que não, que estava tudo bem e ela só se assustou porque o confundiu com outra pessoa. Ele se apresentou - seu nome era Hugo - e perguntou se poderia a fazer companhia, já que não conhecia mais ninguém ali, e ela respondeu que seria ótimo, além de ter ficado extremamente interessada em descobrir o porquê de não conseguir ver o seu tempo de vida.

Enquanto a noite se desenrolava, os dois conversavam sobre várias coisas, riam das pessoas que dançavam, e bebiam. Ana sentia uma eletricidade percorrendo o seu corpo. Hugo era bonito, inteligente, divertido e, principalmente, um mistério para ela. Quando foi a ultima vez em que ela havia sentido algo parecido? Em pouco tempo, ela começou a se abrir de uma forma que nunca havia feito. Contou do acidente que havia sofrido quando era criança, mas resolveu guardar segredo sobre o seu dom, pois não queria que o primeiro cara que ela realmente se interessou na vida achasse que ela era louca. E ficou mais surpresa ainda em saber que Hugo, quando era pequeno, também havia sofrido um acidente, quando criança.

Quando a festa estava no fim e as pessoas estavam indo embora, Ana perguntou se Hugo gostaria de ir pra casa dela continuar bebendo e conversando. Hugo aceitou e logo eles foram embora juntos. Ao chegarem, Ana abriu duas cervejas e eles continuaram a conversar e conversar, até o momento que as vozes deram lugar aos suspiros e gemidos. Os dois transaram a noite toda, e passaram o dia seguinte juntos, conversando, vendo filmes e transando. Quando chega a noite e Hugo tem que ir, ela pergunta se eles vão se ver de novo, e ele responde que sim, dizendo que se depender dele, eles se verão todos os dias. Ana diz que por ela tudo bem, e os dois se despedem com um beijo. Ao fechar a porta, Ana dá um sorriso. Ela não se lembrava de ter se sentido tão feliz em algum momento de sua vida até aquele dia.

Enquanto caminhava pela rua, Hugo lembrou de Ana, e deu um sorriso triste. Quando encontro a mulher da minha vida, a chama dela está prestes a se apagar, pensou.

Possibilidade

Se um dia você se pega pensando
se viveria aquele velho grande amor novamente,
é porque talvez exista a pequena possibilidade
daquele amor, na realidade, nunca ter envelhecido.

Quis

Eu quis escrever uma história de aventura, cheia de reviravoltas e emoção.
Quis escrever uma história de suspense, ou um conto de terror. Quis falar sobre o quanto a vida pode ser difícil e gratificante. Quis escrever sobre como o tempo está bonito.
Eu quis contar uma história sobre viagem no tempo que fosse bonita e envolvente.

Quis falar sobre qualquer outra coisa, mas não consigo. Passei dias em frente a uma página em branco, mas não tive sucesso algum.
É difícil escrever qualquer história, quando tudo que eu penso acaba me levando até você.

Enganos

Às vezes a gente se engana achando que precisa mudar de ares, ir em um lugar novo só porque, aparentemente, estamos cansados de ver as mesmas caras todos os fins de semana. Se engana achando que a gente tá preparado pra fazer coisas que nunca fez, pra se arrepender logo depois.

A gente se engana tentando dizer coisas em voz alta, só pra tentar se convencer de uma verdade que talvez tenha virado mentira há muito tempo, e a gente não percebeu. Se engana achando que a gente está pronto para seguir em frente, pôr um ponto final em assuntos que na verdade estão longe de um fim, e só depois perceber que na verdade a gente nunca saiu do lugar.

Às vezes a gente se engana.