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Ressaca

Minha cabeça dói
como se eu tivesse passado a noite inteira bebendo.
Mas a única coisa que fiz
foi tentar descobrir qual foi o momento
em que a nossa música saiu do tom.

Acho que estou com ressaca de você.

Será que...?

Será que,
quando vê algum filme,
ou lê algum livro;
quando sai pra trabalhar,
quando ouve uma música triste,
ou vai em algum lugar legal;
quando está triste ou feliz,
durante o seu dia,
ou antes de dormir,
você pensa em mim?

Recado

Um dia desses eu li que se você começa a ver a mesma coisa repetidas vezes, é o universo tentando te mandar uma mensagem.

Colocando o nome dela em todos os livros que eu leio, me mostrando fotos em que ela aparece ao fundo, me fazendo a encontrar em quase todo lugar que eu vá, o universo parece bem empenhado em fazer com que eu perceba os sinais que ele me manda.

Mas eu até acho esse exagero todo desnecessário.
No momento que eu a vi pela primeira vez, já havia entendido o recado.

Detesto

Eu detesto sonhar com você.
Porque quando eu sonho,
eu sinto o seu toque,
eu ouço a sua voz,
e quando acordo, ainda sentindo o gosto do teu beijo,
tenho que me forçar a aceitar que nada daquilo foi real.

Posto

No meio do posto de gasolina, o rapaz se ajoelha na frente da namorada e a pede em casamento.
Algumas pessoas que olhavam, não conseguiam acreditar no que estava acontecendo, afinal aquele era o local menos romântico do mundo. E mais absurdo ainda: os dois estavam felizes.

Um frentista que viu a cena enquanto atendia uma cliente deu um leve sorriso. - Que ridículo, com tanto lugar melhor, pedir em casamento logo aqui? - ela comentou, enquanto dava partida no carro e ia embora.
Então o frentista falou baixinho: 
- Quando se ama alguém, qualquer lugar é o ideal para se pedir em casamento.

Calendário

Os calendário normais estao cheios de destaques de datas comemorativas, feriados, mas o meu é diferente.

Tem o dia em que a vi pela primeira vez;
O dia em que a conheci;
O dia do primeiro encontro;
Do primeiro beijo;
Da primeira vez que eu disse que a amava;
Da primeira briga;
Da ultima;
E o dia em que a vi sair da minha vida pra nunca mais voltar.

Acidente

Quando acordou, olhou pro lado e a viu ainda dormindo, iluminada pela luz do sol que entrava mansamente pela janela.
Seu coração acelerou, e tudo o que desejava era beijá-la com intensidade, como havia feito várias vezes durante a noite anterior. Porém, respirou fundo e levantou-se, tendo o cuidado de não fazer barulho, para que ela pudesse continuar a dormir, e foi até a varanda.

Enquanto olhava o movimento ainda devagar das pessoas pela rua, no dia que estava começando, pensou que se o amor fosse como um acidente grave que deixa vítimas, ele teria acabado de morrer.

Saudade

No momento em que você se despede
o peito começa a apertar
e eu sempre acho que não vou aguentar
até a próxima vez que poderemos nos ver.

Eu começo a sentir saudades de você
no momento em que você fecha a porta e vai embora,
E eu fico me perguntando se chegará a hora
em que eu não precise mais te ver partir.

O som do silêncio

De vez em quando, os dois ficavam em silêncio.
Não era como se o assunto tivesse acabado, e um dos dois tivesse que pensar em algo pra falar, e assim manter um ritmo de conversa, eram só duas pessoas em silêncio.

E o silêncio, era a parte mais importante da conversa.

Os olhos dele começavam a percorrer lentamente o ambiente, prestando atenção em cada detalhe do lugar para, por fim, repousar no rosto dela, que também estava fazendo a mesma coisa. Ele guardava com atenção cada traço dela, registrando aquela cena em sua mente, para que pudesse lembrar sempre que estivesse longe dela.

E quando os olhares dos dois se encontravam, era o momento em que eles se diziam as coisas mais sinceras, que talvez não houvessem palavras que pudessem externar com justiça tudo o que eles queriam se dizer. Então, um sorriso leve aparecia, e os dois continuavam a conversar sobre vários assuntos durante a noite toda.

E ao se despedir, os dois ficavam em silêncio mais uma vez.

Resposta

Por mais que a gente pense,
fantasie o cenário perfeito,
por já ter ouvido tanto "não"
a gente acaba não perguntando,
por não ter ideia de como agir realmente
se a resposta for um "sim".

Esquecido

Passei dias com uma sensação
de que havia esquecido alguma coisa.

Incomodado, revirei a minha mente,
buscando algum indício do que pudesse ser.

E quando eu desisti de procurar,
enfim, percebi:
era de você que eu não lembrava mais durante os meus dias.

A primeira vez

Ele tinha 5 anos, quando de fato, a viu a primeira vez.

Bem, já a havia visto antes várias vezes, até sabia o seu nome, mas aquela noite foi a primeira vez que ele a enxergou de verdade. Ele não soube explicar o que estava acontecendo, só ficou admirado quando ela apareceu, com sua aparência calma e atraindo as atenções de quem quer que a visse.

Desde então, ele sempre ficava esperando ansiosamente cada momento em que a pudesse ver. Procurou saber tudo sobre ela, e falava demais, com a empolgação de uma criança, sobre qualquer coisa que descobrisse sobre sua nova paixão. Até que um dia, começou a conversar com ela, que ouvia silenciosamente cada segredo que ele a contava. O tempo foi passando, ele ficou maior, e então ganhou o direito ficar na rua até mais tarde conversando, ou apenas a admirando em silencio. Quando chegava a hora de dormir, ele sempre a desejava boa noite, e ficava observando, da janela do quarto, ela ir embora toda noite. E numa das noites em que ele não a viu, antes de dormir, ele disse a si mesmo "um dia eu não vou mais precisar te ver ir embora".

Movido pelo desejo de estar com o seu grande amor, ele se dedicou a estudar. Entrou na universidade por ela, se formou por ela. Conseguiu o emprego dos sonhos por ela. Trabalhou duro, sempre visualizando o dia em que ele finalmente ia poder estar com ela. Então ele soube que havia chegado a hora, e cada dia que passava se preparando para o momento tão sonhado era dividido com todos os seus colegas e amigos, que também estavam felizes por participar desse amor que era tão antigo e tão lindo. Enfim o grande dia chegou. Ele encontrou seus pais, os abraçou e agradeceu por tudo, dizendo que os amava incondicionalmente, mas que era chegada a hora de ver seu filho ir embora. Então se vestiu, e foi em direção a plataforma junto de mais dois companheiros, sob os olhares de todos que também haviam dado o seu melhor para que aquele dia chegasse. Tomou seu assento, afivelou o cinto, e esperou o fim da contagem regressiva.

Quando o foguete decolou, sua mente voltou no tempo até aquela noite em que, ainda uma criança, ele se encantou pela lua pela primeira vez.

Três dias

Já se passaram três dias, e eu ainda consigo sentir tudo.

Consigo sentir o cérebro entrando em parafuso quando a voz alcançou os meus ouvidos, entendendo o que cada palavra queria dizer. Consigo lembrar da sensação do espaço diminuindo, da visão se perdendo além do que estava em minha frente, da música que tocava virando apenas um barulho confuso. Consigo sentir minhas mãos ao redor do corpo, o cheiro bom aumentando ainda mais, e o calor da respiração próximo ao meu rosto, e o momento em que o tempo parou.

Já se passaram três dias, e eu ainda sinto o beijo como se tivesse acontecendo nesse exato momento.

Bela

Eu não sei dizer como aconteceu.
Só sei que foi de repente, quando percebi ela já havia entrado na minha vida. E desde então, nenhum dia foi igual ao outro.
Ela, com sua personalidade forte, foi me ensinando o valor das pequenas coisas, como saber como é conversar até o dia clarear, rir das coisas ruins e gargalhar com as coisas boas.
Com seu espirito livre, ela me ensinou a voar, mas também a voltar pro chão e, sempre que for preciso, dar um passo atrás, para poder entender o caminho a frente.
Ela, com seu jeito de falar marcante, e sorriso que só posso descrever com a coisa mais bela que eu já vi (ela desperta em mim todos os clichês, e por mim, tudo bem.).
E eu só queria que, por um dia, ela trocasse de lugar comigo, pra ela saber o que eu sinto toda vez que a vejo chegar.

Acostumar

Eu tento fazer com que cada dia seja o mais longo possível, porque toda vez que a noite chega, eu sou obrigado a passar pela porta de casa e lembrar que você não está lá a me esperar.

Eu jogo pedras em sua janela, que não abre mais para mim.
Eu ligo a tv e espero ouvir sua voz a me dizer para mudar de canal.
Eu toco as suas músicas esperando que você apareça para ouvir.

Mas a pior parte é que toda noite eu tenho o mesmo sonho em que eu faço até o impossível pra que você fique, e mesmo assim você me diz adeus.

Eu me pergunto se algum dia eu vou me acostumar a viver em um mundo sem você.

Já era

Ela sempre chega em qualquer lugar que eu estou.
Seja rindo de algo engraçado, cantando, ou dando um "oi".
Sempre que estou desprevenido, ela aparece e me deixa sem rumo com aquele sorriso.

Toda noite, ela vem falar comigo.
É como se quisesse que eu não a esquecesse por um minuto que seja.
E a única coisa que eu consigo dizer é "sai da minha mente, que eu quero dormir".

É, acho que isso quer dizer que eu me ferrei.

O dom

Enquanto Ana tomava seu café, pensava sobre o que tinha pra fazer durante todo o dia. Tinha relatório para entregar no trabalho, um artigo para a universidade, e ainda por cima tinha que arrumar tempo para almoçar com uma amiga, a quem estava ajudando a organizar a festa de aniversário que aconteceria no fim de semana. Ana seria uma pessoa comum, se não fosse por um pequeno detalhe: ela conseguia ver o tempo de vida das pessoas.

Começou aos 11 anos, depois de um acidente de transito em que sua família se envolveu, causado por um motorista que se distraiu enquanto dirigia, observando uma chuva de meteoros que acontecia naquela noite, e acabou acertando em cheio o carro em que Ana estava. Os pais sofreram alguns ferimentos leves, mas Ana acabou ficando em coma por duas semanas. Quando acordou, não lembrava do que havia acontecido, mas notou que conseguia ver umas chamas estranhas sobre a cabeças das pessoas. Falou para a mãe o que estava vendo, mas a enfermeira que estava junto disse que poderia ser alguma alucinação causada pela saída do coma e que, no máximo, em alguns dias ela voltaria ao normal. Porém os dias passavam e Ana continuava enxergando as chamas, sem saber do que se tratava, e percebeu que algumas pessoas tinham uma chama mais intensa que outras. Se queixou novamente, mas tendo ouvido da mãe que iria passar, decidiu não falar mais sobre isso.

No dia em que teve alta e estava prestes a voltar pra casa, Ana esperava seu pai na recepção do hospital, junto com sua mãe, quando do lado de fora, uma ambulância estaciona com as sirenes ligadas. Dela, enfermeiros saem apressados empurrando uma maca onde um homem, já idoso, estava deitado, e era acompanhado por sua família. Ao olhar para ele, Ana percebeu que a chama sobre ele estava muito fraca, e não conseguiu desviar o olhar curioso de criança daquela cena. Então, a chama se extinguiu. Os enfermeiros se agitaram pedindo passagem e sumiram corredor adentro, deixando os familiares do homem para trás. Enquanto esperavam, Ana ficou olhando para a porta por onde os enfermeiros haviam passado. Depois de alguns minutos, surge um médico para falar com a família, com a expressão séria, e informa que eles haviam feito o possível, mas o homem não havia resistido. E Ana, que prestava atenção na cena, entendeu o que tinha acabado de ver e o que eram aquelas chamas. Ao longo dos anos, Ana foi se tornando uma pessoa reservada. Era difícil criar laços com pessoas quando se sabia exatamente o quanto de vida restava nelas. Ainda assim, ela fez amigos, e jurou a si mesma fazer o possível para ignorar as suas chamas, mesmo sendo isso uma tarefa praticamente impossível.

Depois de uma manhã corrida no trabalho, Ana foi ao encontro de sua amiga, que estava empolgada com o aniversário que se aproximava. Ela falava dos detalhes, de onde devia ser enquanto Ana ia anotando sem muita empolgação. A amiga não conseguia entender como Ana era tão desligada para festas e aniversários, e quando Ana dizia que era porque cada dia que se passava, era um dia mais próximo da morte, a amiga respondia que Ana devia ser mais otimista, e aproveitar cada dia de forma única. Ana bem que tentava, mas era complicado de se fazer isso quando só o que ela enxergava em sua frente eram bombas-relógio rumo a explosão.

O fim de semana chegou, e com ele a festa da amiga de Ana. Ela era uma daquelas pessoas que era querida por todas, então, o lugar estava cheio de gente, bebendo, dançando e conversando. Quando Ana chegou, já foi direto pro bar, pediu uma vodka, e pensou que já estava ali, ia aproveitar pra beber. Algumas doses e vários caras babacas depois, Ana estava decidida a ir embora, quando chega sua amiga com o namorado e um amigo dele. Ana tomou um susto quando o viu: não havia chama alguma sobre ele, e ainda assim ele estava lá, de pé, segurando um copo enquanto observava a movimentação das pessoas. Então ele percebeu o olhar de espanto e perguntou se havia algo de errado com ele. Ela respondeu que não, que estava tudo bem e ela só se assustou porque o confundiu com outra pessoa. Ele se apresentou - seu nome era Hugo - e perguntou se poderia a fazer companhia, já que não conhecia mais ninguém ali, e ela respondeu que seria ótimo, além de ter ficado extremamente interessada em descobrir o porquê de não conseguir ver o seu tempo de vida.

Enquanto a noite se desenrolava, os dois conversavam sobre várias coisas, riam das pessoas que dançavam, e bebiam. Ana sentia uma eletricidade percorrendo o seu corpo. Hugo era bonito, inteligente, divertido e, principalmente, um mistério para ela. Quando foi a ultima vez em que ela havia sentido algo parecido? Em pouco tempo, ela começou a se abrir de uma forma que nunca havia feito. Contou do acidente que havia sofrido quando era criança, mas resolveu guardar segredo sobre o seu dom, pois não queria que o primeiro cara que ela realmente se interessou na vida achasse que ela era louca. E ficou mais surpresa ainda em saber que Hugo, quando era pequeno, também havia sofrido um acidente, quando criança.

Quando a festa estava no fim e as pessoas estavam indo embora, Ana perguntou se Hugo gostaria de ir pra casa dela continuar bebendo e conversando. Hugo aceitou e logo eles foram embora juntos. Ao chegarem, Ana abriu duas cervejas e eles continuaram a conversar e conversar, até o momento que as vozes deram lugar aos suspiros e gemidos. Os dois transaram a noite toda, e passaram o dia seguinte juntos, conversando, vendo filmes e transando. Quando chega a noite e Hugo tem que ir, ela pergunta se eles vão se ver de novo, e ele responde que sim, dizendo que se depender dele, eles se verão todos os dias. Ana diz que por ela tudo bem, e os dois se despedem com um beijo. Ao fechar a porta, Ana dá um sorriso. Ela não se lembrava de ter se sentido tão feliz em algum momento de sua vida até aquele dia.

Enquanto caminhava pela rua, Hugo lembrou de Ana, e deu um sorriso triste. Quando encontro a mulher da minha vida, a chama dela está prestes a se apagar, pensou.

Possibilidade

Se um dia você se pega pensando
se viveria aquele velho grande amor novamente,
é porque talvez exista a pequena possibilidade
daquele amor, na realidade, nunca ter envelhecido.

Quis

Eu quis escrever uma história de aventura, cheia de reviravoltas e emoção.
Quis escrever uma história de suspense, ou um conto de terror. Quis falar sobre o quanto a vida pode ser difícil e gratificante. Quis escrever sobre como o tempo está bonito.
Eu quis contar uma história sobre viagem no tempo que fosse bonita e envolvente.

Quis falar sobre qualquer outra coisa, mas não consigo. Passei dias em frente a uma página em branco, mas não tive sucesso algum.
É difícil escrever qualquer história, quando tudo que eu penso acaba me levando até você.

Enganos

Às vezes a gente se engana achando que precisa mudar de ares, ir em um lugar novo só porque, aparentemente, estamos cansados de ver as mesmas caras todos os fins de semana. Se engana achando que a gente tá preparado pra fazer coisas que nunca fez, pra se arrepender logo depois.

A gente se engana tentando dizer coisas em voz alta, só pra tentar se convencer de uma verdade que talvez tenha virado mentira há muito tempo, e a gente não percebeu. Se engana achando que a gente está pronto para seguir em frente, pôr um ponto final em assuntos que na verdade estão longe de um fim, e só depois perceber que na verdade a gente nunca saiu do lugar.

Às vezes a gente se engana.

Depois do fim

De repente, tudo ficou branco.

Pedro estava se sentindo estranho e quando abriu os olhos a visão estava turva, mas ele conseguiu identificar que havia uma pessoa sentada na frente dele.

– Olá, Pedro. Fique tranquilo, sua visão logo irá voltar ao normal. Você está bem. Quer dizer, relativamente.

Aos poucos, Pedro ia começando a se sentir melhor, e conseguia enxergar melhor onde estava: era uma sala toda branca, sem porta alguma, com apenas uma mesa e duas cadeiras. Havia uma luz, mas Pedro não consegui identificar de onde ela vinha. Na sua frente, estava um rapaz franzino, de cabelo repartido ao meio e usando um par de óculos que eram desproporcionais ao tamanho de sua cabeça. No rosto, um sorriso amigável. Pedro nunca havia visto aquele rapaz na vida, mas ele lhe parecia familiar.

– Desculpa, mas quem é você? Como eu vim parar aqui? Eu estava na cama há poucos minutos...
– Então, não tem como dizer isso de uma forma fácil, mas você está prestes a morrer, e esse é o lugar que antecede o seu descanso final.

Então Pedro lembrou. Há pouco tempo havia sido diagnosticado com um tumor no cérebro sem possibilidade alguma de tratamento, e a previsão de vida era de apenas quatro meses. Ele já estava próximo de completar seis meses, o que os médicos consideravam ser um milagre. Então ele tentou ao máximo viver o tempo que restava da forma mais normal possível. E havia conseguido, mas pelo visto a sorte havia acabado.

– Ah, entendo...
– Você aceitou rápido! Geralmente as pessoas demoram um tempo pra entender e aceitar essa parte.
– Bem, não é como se eu tivesse escapatória. Eu já estava fazendo hora extra no planeta, mesmo...
– Humor? Cara, você tá me assustando. Bem, eu já devia esperar.
– Tá, me fala. O que eu tô fazendo aqui?

O rapaz começou a explicar o que estava acontecendo:

– Antes de tudo, aqui não é o purgatório, que é o que você provavelmente deve estar pensando. Sabe aquelas histórias que as pessoas costumam contar, de que estavam prestes a morrer e viram toda sua vida passar diante dos seus olhos em um segundo? Pronto, é isso que esse lugar é, e eu serei o seu ilustre guia nessa aventura. Basicamente eu sei tudo sobre você, desde o nascimento, até o momento em que você apareceu nessa sala. E é a minha função te mostrar toda a sua vida. Legal, né?

Pedro estava fazendo força pra acompanhar. Tudo bem que em sua vida, já tinha lido muitos livros de ficção cientifica, mas aquilo tudo estava soando absurdo demais, até para a imaginação fértil dele. Então, o Guia se levantou e pediu para Pedro o acompanhar. Mas pra onde? não tem nem porta aqui, pensou, e antes que ele pudesse piscar, uma porta havia se materializado onde antes só havia uma parede. O Guia deu uma leve risadinha antes de passar pela porta, e Pedro o seguiu. Encontrou um espaço imenso, vazio, e ao olhar para trás, a sala que eles estavam antes havia sumido. O Guia, começou a explicação, claramente se divertindo com tudo aquilo.

– Então, é aqui que a mágica acontece. – Pedro não conseguia entender. – Tá, deixa eu demonstrar.

Com um simples movimento das mãos, lá estavam os dois, parados no quarto de hospital onde o corpo de Pedro estava, na cama. O monitor cardíaco emitia bipes lentos e fracos. Pedro ficou incomodado com a visão.

– Tá, entendi. Mas você tinha que me trazer logo aqui?
– Pô, vacilo, né? Mal, aí.
– Você não passa muita credibilidade, como um guia do mundo espiritual, com esse jeito meio doido, sabia?
– Ah, é que cada pessoa me vê de acordo com a sua própria personalidade. Eu sou apenas um construto disso tudo, fica melhor pra interagir, sabe? Deixar o clima mais leve. Por exemplo, nesse mesmo instante eu sou um pirata zumbi interagindo com uma senhora de 83 anos numa outra sala. Doideira, né?
– Eu não consigo imaginar como o momento antes da morte poderia ficar leve, mas...
– Se não queria que eu fosse assim, você não devia ter sido a pessoa que foi durante a vida. Mas vamos sair daqui. Minha função é te mostrar sua vida inteira. A gente pode pular algumas coisas que te fizeram mal, se quiser. E aí, por onde quer começar?
– Bem, tem uma coisa que eu gostaria de ver antes de ir.

Pedro pediu para ir até o dia do aniversário de 23 anos dele. O Guia o olhou espantado enquanto ao redor deles o cenário mudava. Agora eles estavam comemorando num bar. Logo eles avistaram um jovem Pedro, se divertindo com seus amigos. A banda tocava uma versão de Baba O'Riley, do Who. Enquanto Pedro curtia, ia observando as pessoas ao redor. Foi quando a viu. Dançando no meio das pessoas, estava Julia, a mulher que logo seria o grande amor da vida dele.

No mundo real, o monitor cardíaco começou a acelerar.

                                                                                                                      -

O Guia ficou intrigado com a escolha de Pedro ir até aquele dia. Ué, mas você não sabe tudo sobre minha vida?, perguntou Pedro. Eles assistiam a cena se desenrolar. Os amigos de Pedro haviam percebido que ele estava interessado na garota que dançava um pouco afastada deles, e o desafiaram a ir até ela, e ele, reunindo toda a coragem do mundo que as cervejas que havia bebido lhe deram, ele foi até ela. Eles se deram bem, e logo viraram amigos. Então a cena foi acelerando, passando por vários momentos dos dois juntos. As conversas intermináveis, as viagens, o primeiro beijo, a primeira transa, o noivado. O Guia estava ficando incomodado com aquilo, afinal, já sabia o fim daquela história.

– Cara, você tem certeza que vai esgotar seus últimos momentos de vida nessa lembrança, mesmo sabendo como ela acaba? É como assistir dois trens se chocando. Vocês nem ficaram juntos no final.
– Saber como uma história acaba não é mais importante que as coisas que me levaram até o fim dela.

Agora eles estavam no dia do casamento. Pedro e Julia trocavam alianças em frente a todos os seus amigos mais próximos, e quando ele a prometeu que a amaria e levaria junto com ele até depois do fim, Pedro pediu:

– Pronto. Pode pausar. – O Guia, em silêncio, o obedeceu. – É, agora eu estou pronto pra ir.

A imagem congelou com os dois se olhando apaixonados, e Pedro fechou os olhos por um breve momento. O Guia não costumava ver coisas como aquela acontecerem com frequência. Eram literalmente muitas opções de memória, então como uma pessoa seria capaz de centrar todas elas em volta de uma única pessoa? Mas era aquele tipo de pergunta que não havia uma resposta concreta. Não há sentido algum em procurar lógica no amor, concluiu, e, com um movimento, uma porta surgiu diante dos dois. Mas aquela era diferente da anterior, Pedro conseguia sentir. Havia um túnel escuro, aparentemente sem fim. O Guia se despediu, e disse que não se preocupasse, que apesar de parecer, o lugar para onde estava indo era bastante amigável. Então Pedro seguiu em frente rumo a escuridão, com um sorriso no rosto. Não importava o que havia acontecido, como havia acabado. Ele sabia que estava cumprindo a promessa.

O monitor cardíaco emitiu um longo bipe.

Pensamentos

Na cabeça dele, só existia um turbilhão de pensamentos.

Trinta metros:
É ela!

Vinte e cinco metros:
Eu acho não estou preparado para isso.

Vinte metros:
Meu Deus do céu, como ela é linda!

Quinze metros:
Esse sorriso é covardia... Foi esse sorriso que me quebrou na primeira vez que eu o vi, e sempre irá me quebrar.

10 metros:
Eu achei que eu iria resistir, mas eu não consigo parar de chorar.

Cinco metros:
Meu coração está batendo tão rápido, que pode explodir a qualquer momento.

Um metro:
Enfim chegou a hora. Finalmente eu posso dizer que sou feliz.

Então, ele foi ao encontro dela, que o cumprimentou baixinho:

- Oi.
- Oi.
- Esperou muito?
- Só a minha vida inteira.

Os dois sorriram apaixonados, e se dirigiram ao altar.

Tchau

O tempo é tão cruel
a ponto de se arrastar
quando sabe que vou te ver,
e voar
no momento em que te encontro,
me fazendo já chegar dizendo "tchau".

Fenômeno

O olho humano consegue reter por alguns milésimos de segundo uma imagem em sua retina.
Esse fenômeno é chamado de persistência da visão.
De acordo com essa linha de raciocínio, olho humano levaria milésimos, até centésimos de segundos para esquecer a imagem captada.

Dito isto, eu me pergunto o que deve ter acontecido para que a sua imagem ter ficado gravada em minha retina e não ter desaparecido durante todo esse tempo.

Um segundo

Você fica aí, parada
te olho e não faço nada
esperando a hora certa
pra te dizer
que é a primeira vez que eu te vejo
mas gostei desse teu jeito
de quem "não quer nem saber".

O seu nome, eu não sei,
Deus, eu juro que tentei,
te encontrar, mas não te acho
em lugar algum.
Me perdi ao te buscar,
posso até me enganar,
mas acho que você fugiu.

Só que eu não vou deixar você sair assim,
vou te procurar até o fim do mundo
Movo céus e terras pra fazer você me olhar
nem que seja só por um segundo.

Em ti, ancorei

Durante muito tempo
naveguei só e sem rumo,
até o dia em que tuas terras
surgiram em meu horizonte.

Aprumei meu barco
em tua direção,
desembarquei na tua voz
e adentrei na floresta do teu corpo.

Em teus olhos, vi meu sol,
do teu cheiro, fiz jardim.
Fiz do teu peito, morada,
da tua boca, alimento.

Depois de viver tanto mar,
lar em ti, encontrei.
Depois de tanto navegar,
em ti, ancorei.

A Garota Impossível

Era a primeira vez que eu a estava vendo, eu tinha certeza. Mas quando ela falou, eu senti que já havia ouvido aquela voz.

A cada dia que passava, mais e mais ela me parecia familiar, o que me deixava ainda mais incomodado... Era como se eu tivesse certeza que já havia a encontrado, que já havíamos corrido pelas ruas em uma noite fria, visitado lugares pela primeira vez. Mas ainda assim, na minha cabeça aquilo era impossível, já que tecnicamente era a primeira vez que eu olhava aqueles olhos.

Na medida em que o tempo passava, quanto mais aventuras vivíamos, mais aquele jeito destemido me atraia e mais eu queria saber de onde vinha tanta familiaridade, a ponto de eu achar que tudo aquilo era apenas uma peça que o universo estava tentando me pregar, e que ela era a prova disso. Mas ela parecia não saber, na verdade ela nem fazia idéia do que estava acontecendo, só havia dado a sorte - ou o azar - de ter cruzado o meu caminho. Então para me proteger, nos proteger, eu decidi que seria melhor se nos separássemos. Eu nunca fui uma boa companhia, qualquer pessoa que cruzasse o meu caminho estaria entrando num turbilhão de problemas. Meu fim era terminar só.

Ah, mas aquela garota... Ela sempre voltava. Mesmo que eu fosse até os confins do universo, ela me encontraria. Ela sempre estava lá para salvar a minha vida. E no fundo do meu coração, eu sabia que aquilo já havia acontecido várias vezes. Nas várias vidas que eu tive, ela sempre esteve comigo. Ela já foi a mulher que me indicou algum caminho que eu devia seguir, já foi a mulher com quem eu quis fugir, era a mulher que segurava a minha mão até aquele momento, e sei que será o rosto dela que eu verei antes de fechar os meus olhos pela ultima vez.

Mesmo que nossos caminhos se separem, sei que jamais irei esquecer aquela Garota Impossível.

Resquício

Procurei durante muito tempo algum canto em que eu pudesse ficar.
Mas depois de tanto andar, percebi que nessa cidade não há lugar para mim.
Não existe para onde fugir, pois em qualquer canto eu sempre estarei escondido em plena vista, já que em todos os lugares que eu vá, sempre há algum resquício de você.

O momento que nunca passou

Uma troca de sorrisos.
Olhos nos olhos, a distância diminui.
Os corpos lentamente vão se encontrando.
A respiração fica mais próxima.
Os lábios se tocam, as línguas se entrelaçam.
Por um instante, são só um.
E se afastam.
Foi o primeiro beijo.
Foi apenas um momento.
Mas foi o momento que nunca passou.

Segredo

Em vários pontos da cidade, os lugares mais comuns podem guardar um grande segredo.

Pode ser uma parada de ônibus, um banco de praça, uma marquise, uma casa.

Por serem testemunhas inanimadas de vários acontecimentos - primeiros, últimos ou únicos beijos, lágrimas ou intensa felicidade -, esses lugares acabam se transformando em portais capazes de fazer com que alguém que viveu algo ali reveja com exatidão tudo o que aconteceu naquele lugar.

É como se o tempo parasse e tudo ficasse se repetindo, até que a necessidade de voltar a vida real faça tudo voltar ao normal.

Mas nada nos impede de fazer o mesmo caminho no outro dia só para ver tudo outra vez...

Promessa

Toda vez que eu prometo algo, não descanso até cumprir.
Não importa o nível de dificuldade.
É algo que, pra mim, vale muito.

E sempre foi assim, até você aparecer na minha vida.

Prometi não me apaixonar.
Prometi não errar.
Prometi não te deixar ir.
Prometi te esquecer.

Você foi a única promessa que eu não consegui manter.

Só

Eu estava só.

Perdido entre milhares de rostos desconhecidos, sem conseguir ouvir uma palavra do que diziam, lá estava eu. Só, no meio da multidão.
Nos primeiros instantes, o desespero pairou sobre mim, com suas asas sombrias envolvendo todo o meu corpo, me puxando lentamente para o buraco negro em que ele habita. Não havia uma mão para me segurar. Meus olhos procuraram, sem sucesso, algum ponto em que eu pudesse me agarrar, mas não encontrei nenhum. Eu estava na beira do abismo. Eu iria cair.

Então, por quê adiar o momento?
Eu me entreguei e pulei. 

Mas... no mesmo instante, eu percebi que na verdade eu estava flutuando, e não caindo.

Num primeiro momento não entendi o que havia acontecido, mas então, eu senti uma eletricidade irromper por todo o meu corpo. Vi o desespero em agonia, tentando se desvencilhar do raio que o atingia, para então fugir amedrontado, se afastando de mim numa velocidade gigantesca, até não sobrar nenhum vestígio dele ali, como se nunca tivesse aparecido. Então eu vi que estava emanando um brilho intenso, capaz de afastar qualquer mal. Era de mim que estava vindo. Do meu peito.

E eu enfim, percebi.

Meu corpo poderia estar só, mas meu coração não estava sozinho.
E pelo visto, nunca estará.

Quase

Eu estava seguindo o meu caminho.
Tinha certeza de que minha convicção me levaria para longe você.
Mas ao olhar pra trás, te vi sorrir pra mim,
Foi o bastante para eu perceber que nunca havia saído do lugar.

Cinema

(Na bilheteria.)

- *Que lugar eu escolho* Essa fila tá boa?
- Mais atrás, não? É melhor.
- É, né? Então, ultima fila, essas poltronas do meio. Quanto? Ei, vai pra onde com esse dinheiro? Não, sai. Fui eu que chamei, você nem queria ver esse. Tira aqui, moça, rápido! Obrigado. Tá afim de pipoca?
- Não, não, deixa pra comer depois do filme.
- Tá certo. *peraí, isso é um convite?*
- Anda, menino! O filme vai começar e você parado aí. Para de pensar!
- Ih, foi mal.

(Dentro da sala.)

- Ei, deixa eu sentar desse lado. É que eu gosto de deixar minha bolsa do meu lado esquerdo.
- Se quiser, eu pulo uma cadeira...
- Deixa de ser retardado! Vai, passa! Agora sim.
- Como é que nesse tempo todo a gente nunca tinha vindo no cinema juntos?
- Também, 100 anos pra resolver me chamar.
- Desculpa aí.
- Parece até que tava com medo de encontro...
- *ISSO É UM ENCONTRO????* Isso... isso é um encontro? 
- E não é?
- Claro que é, só tava te testando. Vai começar.

(Trailers.)

- Pode me chamar pra ver esse.
- Certo... *ué?*

(...)

- Esse outro a gente tem que ver também!
- Certo... *será que isso é uma mensagem?*

(...)

- Não, esse aí é que eu quero ver mesmo, viu?
- Quer que eu traga logo a cama pra ficar direto, não?
- Aí você é quem sabe.
- Tá bom, então. *isso É uma mensagem.*

(Começa o filme)

(...)

- Nossa, devia ter trazido um casaco, a sala tá muito fria.
- Toma.
- E você não vai ficar com frio não?
- Nada, encosta em mim e tá bom, já.
- Tá. Assim tá bom?
- Tá sim. Mas se eu der sorte fica melhor.
- Eu também acho. (...) Mas agora você não vai prestar atenção no filme...
- Ah, eu prefiro mesmo é saber como esse nosso filme termina.
- Bem melhor, tenho certeza.

Ironia

Oi, como estão as coisas contigo?

Eu resolvi te escrever essa carta pra te dizer que eu me interessei por uma garota. Sei que você não deve se importar ou lembrar que eu existo, mas mesmo assim, quis te contar isso. 

Então: tinha essa garota que eu sempre via nos lugares em que ia, seja bebendo com as amigas no bar, caminhando pela rua, ou na fila do cinema no final de semana. Ela sempre estava lá. 

Só que ultimamente ela estava chamando a minha atenção, e eu não sabia o porquê.

Daí veio esse dia em que eu estava no bar, e começa a tocar aquela música da minha banda preferida, mas uma daquelas que não é conhecida sabe? Que só quem gosta mesmo e já ouviu todos os discos conhece. Lá eu estava curtindo empolgado a música, quando olho pro lado casualmente e lá estava ela, balançando a cabeça e cantando junto. Nesse momento eu fiquei impressionado - essa menina acabou de me ganhar - e então passei a noite toda de olho nela. 

E ela percebeu e começou a olhar também. "Será que foi por causa da música?", pensei.

E então, numa brecha arrumada por um amigo que estava de olho em uma das amigas dela, puxei papo, do meu jeito meio atropelado. Então ela comentou que sempre me via, e que era engraçado nós só estarmos nos falando pela primeira vez naquela noite. Rapidamente engatamos uma conversa atrás da outra, falando sobre músicas, vidas, e caramba, como ela era incrível! Parecia que eu já a conhecia há muito tempo, porque já estava completamente caidinho por ela. 

Quando chegou o final da noite, percebemos que ainda não sabíamos o nome um do outro. E depois  dela me dizer o nome, ao nos despedirmos eu tive que rir, e acabei entendendo o motivo dela chamar tanto a minha atenção: ela me lembrava muito você. E todos os lugares em que eu reparava a presença dela, eram lugares que você e eu já tínhamos ido juntos.

Além disso, por ironia do destino, vocês dividem o mesmo nome.

Playlist

Cada música
tem uma ao menos frase
que me lembra você.

Isso quando não é a musica inteira
que parece que foi feita
baseada em nós dois.

Poderia perfeitamente
ser a trilha sonora da nossa vida.

Mas é só uma lista de músicas
que me colocam um sorriso no rosto
toda vez que começa a tocar.