De repente, tudo ficou branco.
Pedro estava se sentindo estranho e quando abriu os olhos a visão estava turva, mas ele conseguiu identificar que havia uma pessoa sentada na frente dele.
– Olá, Pedro. Fique tranquilo, sua visão logo irá voltar ao normal. Você está bem. Quer dizer, relativamente.
Aos poucos, Pedro ia começando a se sentir melhor, e conseguia enxergar melhor onde estava: era uma sala toda branca, sem porta alguma, com apenas uma mesa e duas cadeiras. Havia uma luz, mas Pedro não consegui identificar de onde ela vinha. Na sua frente, estava um rapaz franzino, de cabelo repartido ao meio e usando um par de óculos que eram desproporcionais ao tamanho de sua cabeça. No rosto, um sorriso amigável. Pedro nunca havia visto aquele rapaz na vida, mas ele lhe parecia familiar.
– Desculpa, mas quem é você? Como eu vim parar aqui? Eu estava na cama há poucos minutos...
– Então, não tem como dizer isso de uma forma fácil, mas você está prestes a morrer, e esse é o lugar que antecede o seu descanso final.
Então Pedro lembrou. Há pouco tempo havia sido diagnosticado com um tumor no cérebro sem possibilidade alguma de tratamento, e a previsão de vida era de apenas quatro meses. Ele já estava próximo de completar seis meses, o que os médicos consideravam ser um milagre. Então ele tentou ao máximo viver o tempo que restava da forma mais normal possível. E havia conseguido, mas pelo visto a sorte havia acabado.
– Ah, entendo...
– Você aceitou rápido! Geralmente as pessoas demoram um tempo pra entender e aceitar essa parte.
– Bem, não é como se eu tivesse escapatória. Eu já estava fazendo hora extra no planeta, mesmo...
– Humor? Cara, você tá me assustando. Bem, eu já devia esperar.
– Tá, me fala. O que eu tô fazendo aqui?
O rapaz começou a explicar o que estava acontecendo:
– Antes de tudo, aqui não é o purgatório, que é o que você provavelmente deve estar pensando. Sabe aquelas histórias que as pessoas costumam contar, de que estavam prestes a morrer e viram toda sua vida passar diante dos seus olhos em um segundo? Pronto, é isso que esse lugar é, e eu serei o seu ilustre guia nessa aventura. Basicamente eu sei tudo sobre você, desde o nascimento, até o momento em que você apareceu nessa sala. E é a minha função te mostrar toda a sua vida. Legal, né?
Pedro estava fazendo força pra acompanhar. Tudo bem que em sua vida, já tinha lido muitos livros de ficção cientifica, mas aquilo tudo estava soando absurdo demais, até para a imaginação fértil dele. Então, o Guia se levantou e pediu para Pedro o acompanhar.
Mas pra onde? não tem nem porta aqui, pensou, e antes que ele pudesse piscar, uma porta havia se materializado onde antes só havia uma parede. O Guia deu uma leve risadinha antes de passar pela porta, e Pedro o seguiu. Encontrou um espaço imenso, vazio, e ao olhar para trás, a sala que eles estavam antes havia sumido. O Guia, começou a explicação, claramente se divertindo com tudo aquilo.
– Então, é aqui que a mágica acontece. – Pedro não conseguia entender. – Tá, deixa eu demonstrar.
Com um simples movimento das mãos, lá estavam os dois, parados no quarto de hospital onde o corpo de Pedro estava, na cama. O monitor cardíaco emitia bipes lentos e fracos. Pedro ficou incomodado com a visão.
– Tá, entendi. Mas você tinha que me trazer logo aqui?
– Pô, vacilo, né? Mal, aí.
– Você não passa muita credibilidade, como um guia do mundo espiritual, com esse jeito meio doido, sabia?
– Ah, é que cada pessoa me vê de acordo com a sua própria personalidade. Eu sou apenas um construto disso tudo, fica melhor pra interagir, sabe? Deixar o clima mais leve. Por exemplo, nesse mesmo instante eu sou um pirata zumbi interagindo com uma senhora de 83 anos numa outra sala. Doideira, né?
– Eu não consigo imaginar como o momento antes da morte poderia ficar leve, mas...
– Se não queria que eu fosse assim, você não devia ter sido a pessoa que foi durante a vida. Mas vamos sair daqui. Minha função é te mostrar sua vida inteira. A gente pode pular algumas coisas que te fizeram mal, se quiser. E aí, por onde quer começar?
– Bem, tem uma coisa que eu gostaria de ver antes de ir.
Pedro pediu para ir até o dia do aniversário de 23 anos dele. O Guia o olhou espantado enquanto ao redor deles o cenário mudava. Agora eles estavam comemorando num bar. Logo eles avistaram um jovem Pedro, se divertindo com seus amigos. A banda tocava uma versão de Baba O'Riley, do Who. Enquanto Pedro curtia, ia observando as pessoas ao redor. Foi quando a viu. Dançando no meio das pessoas, estava Julia, a mulher que logo seria o grande amor da vida dele.
No mundo real, o monitor cardíaco começou a acelerar.
-
O Guia ficou intrigado com a escolha de Pedro ir até aquele dia.
Ué, mas você não sabe tudo sobre minha vida?, perguntou Pedro. Eles assistiam a cena se desenrolar. Os amigos de Pedro haviam percebido que ele estava interessado na garota que dançava um pouco afastada deles, e o desafiaram a ir até ela, e ele, reunindo toda a coragem do mundo que as cervejas que havia bebido lhe deram, ele foi até ela. Eles se deram bem, e logo viraram amigos. Então a cena foi acelerando, passando por vários momentos dos dois juntos. As conversas intermináveis, as viagens, o primeiro beijo, a primeira transa, o noivado. O Guia estava ficando incomodado com aquilo, afinal, já sabia o fim daquela história.
– Cara, você tem certeza que vai esgotar seus últimos momentos de vida nessa lembrança, mesmo sabendo como ela acaba? É como assistir dois trens se chocando. Vocês nem ficaram juntos no final.
– Saber como uma história acaba não é mais importante que as coisas que me levaram até o fim dela.
Agora eles estavam no dia do casamento. Pedro e Julia trocavam alianças em frente a todos os seus amigos mais próximos, e quando ele a prometeu que a amaria e levaria junto com ele até depois do fim, Pedro pediu:
– Pronto. Pode pausar. – O Guia, em silêncio, o obedeceu. – É, agora eu estou pronto pra ir.
A imagem congelou com os dois se olhando apaixonados, e Pedro fechou os olhos por um breve momento. O Guia não costumava ver coisas como aquela acontecerem com frequência. Eram literalmente muitas opções de memória, então como uma pessoa seria capaz de centrar todas elas em volta de uma única pessoa? Mas era aquele tipo de pergunta que não havia uma resposta concreta.
Não há sentido algum em procurar lógica no amor, concluiu, e, com um movimento, uma porta surgiu diante dos dois. Mas aquela era diferente da anterior, Pedro conseguia sentir. Havia um túnel escuro, aparentemente sem fim. O Guia se despediu, e disse que não se preocupasse, que apesar de parecer, o lugar para onde estava indo era bastante amigável. Então Pedro seguiu em frente rumo a escuridão, com um sorriso no rosto. Não importava o que havia acontecido, como havia acabado. Ele sabia que estava cumprindo a promessa.
O monitor cardíaco emitiu um longo bipe.