No final dos anos 80, era comum as emissoras de TV saírem do ar durante a madrugada e ficarem sem sinal até amanhecer, só voltando a funcionar por volta das 7 da manhã. E durante esse tempo até a volta do sinal de TV, alguns canais transmitiam sinais de rádios, onde se tocava o que não se ouvia por aqui com frequência: musicas internacionais, trilhas de filmes... E meus pais contam que desde pequeno, eu acordava quando estava amanhecendo, colocava uma almofada na frente da TV, ligava e ficava sentado, ouvindo e cantando as músicas, e fazia isso religiosamente, tanto que em uma dessas vezes meu pai colocou o despertador pra tocar mais cedo, pegou um gravador e se escondeu atrás de uma das cortinas da sala, pra que pudesse gravar a minha cantoria sem que eu percebesse, já que eu poderia ficar com vergonha caso o visse na sala.
Eu tive essa relação com a música desde pequeno, e isso nunca mudou. Cresci ouvindo muita música, cantei em coral, cantei em igreja, até cheguei a cantar em um casamento quando era moleque, e obviamente, queria ter uma banda de rock. Aprendi tocar violão só pra poder tocar as músicas que gostava, e o sonho da banda era apenas um sonho mesmo. Eu sabia que das minhas limitações, que não era apenas saber tocar algumas músicas, a coisa era muito mais profunda, e depois de crescido, os traços da personalidade já não eram mais os mesmos de quando eu era adolescente e era fácil me apresentar na frente de uma plateia.
Um dia, eu estava numa festa em que uma banda de uns amigos, que era até conhecida por aqui. estava tocando. E aquela apresentação deles estava muito empolgante, todo mundo cantando junto, uma energia enorme. Ai um dos meus amigos olhou pra mim e me chamou. Eu corri, já que pensei que ele ia pedir pra que eu pegasse algo pra ele, ou que estava com algum problema. Ele tirou o violão e disse "toca". Eu olhei pra ele por um instante, sem reação, e ele insistiu: "toca. É Tempo Perdido". Eu disse a ele que não sabia os acordes. Eu realmente não sabia. Era uma música que eu sempre ouvia, mas nunca havia parado pra aprender. Um outro amigo chegou junto e disse "olha pra mim, eu te digo os acordes". E assim eu peguei o violão, e estava tremendo. Respirei fundo, olhei pro meu amigo, e comecei a tocar. A medida que a música progredia, os acordes dela eram cravados na minha mente enquanto eu aprendia ali, na hora. E eu que comecei a música tenso, estava completamente entregue a explosão ao fim dela. A energia que percorreu meu corpo naqueles poucos minutos foram suficientes pra que eu nunca mais pudesse esquecer daquele momento.
O tempo passou e eu até cheguei a ser parte de uma banda, mas toda vez que eu escuto Tempo Perdido, sempre me lembro da vez que por um momento, eu me senti uma estrela do rock.