Quinta-feira
As coisas já não eram como antes. Ela sabia.
Ele também já havia notado que as manhãs já não tinham o mesmo brilho de antes, que os sons já não eram os mesmos. Mas havia uma história ali, havia toda uma vida, que em seus momentos altos e baixos, os dois viveram juntos, então simplesmente virar as coisas e ir embora era um desfecho muito infeliz diante de tudo que eles viveram.
Eles não estavam se deixando por ódio, só perceberam que o que existia não era mais o suficiente para continuarem juntos. Por isso resolveram se despedir apropriadamente. E assim, levados por lembranças no fim da tarde daquela quinta-feira de outono, foram se encontrar no mesmo lugar em que haviam se visto pela primeira vez. Caminharam pelo parque, cada um contando como havia sido o seu dia, e foram ao restaurante em que ele a levou a primeira vez. Era um lugar bonito, de iluminação fraca, com algumas mesas ocupadas por casais apaixonados, e um piano de cauda nos fundos, que era tocado por um jovem rapaz. Enquanto a noite caía eles conversavam. Não tentavam descobrir porque tudo havia chegado até ali, não era necessário. Eles apenas falavam coisas bobas e dos bons momentos que eles viveram juntos.
Depois de algumas taças de vinho e muitos sorrisos, o rapaz do piano que havia dado uma breve pausa, torna a tocar, e os primeiros acordes de "As time goes by" soam pelo restaurante. Ele deixa escapar um sorriso, a olha e a convida para dançar. Ela fica receosa, já que não havia mais ninguém no meio do salão. "Desde quando você se importa com a falta de pessoas dançando?" ele pergunta, e ela, vencida, vai. E então eram apenas os dois, sendo guiados pela melodia que saía do piano, sendo observados pelos outros casais que estavam naquele restaurante, e assim terminou.
Os últimos passos, da última dança, da última canção de um disco que não irá mais tocar.
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