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Mostrando postagens de novembro, 2020

Livro

Olhando uns livros que há muito não mexia, eu encontrei uma foto de nós dois dentro de um deles. Não sei se ela fez de propósito, esperando que eu encontrasse algum dia, ou se estava lendo aquele livro e usou a primeira coisa que encontrou pra marcar a página que havia parado de ler, mas lá estava. E era uma foto que eu nem sabia que existia. Não em papel, ao menos. 

Ver aquela imagem me fez pensar na ironia que, assim como ela e eu, aquela era mais uma história que teve que parar de ser contada, e os personagens acabaram se perdendo entre as páginas de um livro que não iria mais ser aberto.

Filme

Tentei lembrar quais filmes a gente viu juntos
mas percebi que, para mim, todos eram iguais.
É que eu sempre paro de olhar para a tela,
já que é muito melhor ficar olhando pra você.

Em público

Enquanto a sua mão sobe
lentamente pela minha coxa,
eu luto ferozmente contra a vontade
de cair na sua provocação,
e tento não deixar transparecer
o desejo imenso de estar dentro de você.

Estalar

Ela sabe exatamente o poder que tem sobre ele. A cada ordem dada, ele obedece sem nenhuma hesitação, só pelo prazer real de ver a expressão de satisfação no rosto de sua dona. Saber que podia dominá-lo com uma simples palavra a qualquer momento a excitava, e ela fazia um ótimo uso desse poder. Perdeu a conta de quantas vezes se deliciou, sabendo que seu servo estava fazendo exatamente o que ela queria, em qualquer lugar que fosse. E o recompensava muito bem, como todo bom menino obediente merecia. Ela encontrou o escravo ideal, que estava aberto a qualquer desejo, e o realizaria com extrema dedicação.

Ele nunca havia experimentado algo parecido, mas na primeira vez que aconteceu, já estava completamente entregue. Não havia força de vontade nele que resistisse ao menor estalar de dedos dela.

Preparado

Não podemos dizer que a primeira vez dos dois foi incrível. Na verdade, passou bem longe disso.

Ele ficou tão nervoso que mal conseguia desabotoar a blusa dela, que tentava calmamente o tranquilizar, mas sem sucesso. O beijo afobado e o fato de não saber o que fazer com as mãos o deixou tão desesperado, que ele só pediu desculpas e foi embora, dizendo que tudo bem se ela não quisesse mais olhar na casa dele. Ele mesmo não queria nem passar na frente do espelho, pra não ter que encarar a face da derrota.

Ela até que tentou se aproximar, já que de fato gostava dele, mas a confiança dele nunca foi das melhores, então o sentimento de a ter decepcionado de alguma forma o deixava envergonhado, e o pior é que ele nem sabia dizer o motivo de ficar tão abalado, e por isso, ele decidiu se afastar. Os dois ainda eram jovens, e seus caminhos se separaram, mas sempre acabavam por se cruzar em alguns momentos. E toda vez que eles se encontravam, ele ficava nervoso: sempre era um sinal de que ia acontecer algo de errado. Seja derrubar um copo cheio de bebida nela, seja tropeçar e cair no meio de bar lotado, se os dois estivessem juntos, pra ele, era a receita do desastre. Mas ela adorava o jeito estabanado dele, sempre ficava olhando com carinho e se divertindo com ele tentando corrigir as coisas e piorando tudo. "Gosto estranho demais", diziam as amigas dela sobre o tipo de homem que a atraia, mas ela não se importava, só dizia que adorava a sensação de ser a gata caçando um ratinho com "uma carinha de bobo e desesperado" que ela adorava.

Os anos foram passando e os encontros ocasionais deixaram de acontecer, ao menos até que o casamento de um amigo em comum os reunisse novamente depois de um bom tempo. Assim que o viu, ela tentou imaginar o que poderia acontecer de divertido a partir daquele momento. Ele veio ao seu encontro, e a cumprimentou calmamente, o que ela definitivamente achou estranho, já que aquilo nunca havia acontecido desde a primeira vez que os dois se viram. Ele perguntou se ela queria algo para beber, e diante da afirmativa dela, se levantou sem ao menos hesitar. Enquanto a cerimônia rolava, os dois conversavam sobre a vida que tinham levado até aquele momento. E quando abriram o salão para que, enfim os convidados pudessem se juntar aos agora recém-casados, ele se levantou e a convidou para dançar. Ela, completamente surpresa, aceitou o convite. "O que mudou?"- ela o perguntou enquanto dançavam, já que por mais que ela tentasse, nunca imaginaria que uma situação como aquela pudesse acontecer entre os dois. "Eu sempre tentei me preparar quando o assunto era você, mas sempre dava errado. Por mais que eu tentasse, sempre saia do controle, e eu não entendia o motivo. E foi assim até que um dia, eu percebi. A gente nunca vai estar preparado pra quem a gente gosta."

Enquanto a noite avançava lentamente e a banda tocava animada, nenhum dos dois dava sinal que tinham cansado de dançar.