Só
Eu estava só.
Perdido entre milhares de rostos desconhecidos, sem conseguir ouvir uma palavra do que diziam, lá estava eu. Só, no meio da multidão.
Nos primeiros instantes, o desespero pairou sobre mim, com suas asas sombrias envolvendo todo o meu corpo, me puxando lentamente para o buraco negro em que ele habita. Não havia uma mão para me segurar. Meus olhos procuraram, sem sucesso, algum ponto em que eu pudesse me agarrar, mas não encontrei nenhum. Eu estava na beira do abismo. Eu iria cair.
Então, por quê adiar o momento?
Eu me entreguei e pulei.
Mas... no mesmo instante, eu percebi que na verdade eu estava flutuando, e não caindo.
Num primeiro momento não entendi o que havia acontecido, mas então, eu senti uma eletricidade irromper por todo o meu corpo. Vi o desespero em agonia, tentando se desvencilhar do raio que o atingia, para então fugir amedrontado, se afastando de mim numa velocidade gigantesca, até não sobrar nenhum vestígio dele ali, como se nunca tivesse aparecido. Então eu vi que estava emanando um brilho intenso, capaz de afastar qualquer mal. Era de mim que estava vindo. Do meu peito.
E eu enfim, percebi.
Meu corpo poderia estar só, mas meu coração não estava sozinho.
E pelo visto, nunca estará.
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