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Space Dementia*

223 dias.

Há 223 dias que tenho apenas o frio e a solidão como companhia.
Os bipes dos computadores são os únicos sons que impedem este lugar de cair num silêncio tão profundo que nem mesmo minha voz seria capaz de quebrar. Enviar dados, fazer consertos e checagens de rotina... É tudo o que eu faço aqui. Me locomovendo lentamente por entre esses espaços apertados, sinto como se fosse ser esmagado por essas paredes de metal e me perder eternamente na escuridão.

Mas algo acontece em mim toda vez que olho pra fora, e vejo a Terra. Desde o primeiro dia, a visão foi arrebatadora. Vê-la em toda a sua magnitude me fez querer voltar. Só de estar tão longe e imaginar toda a vida e emoção que está acontecendo lá, me faz amaldiçoar a solidão. Quanto mais eu olho, mais o meu peito aperta, como se suplicando para que eu faça algo que aplaque este vazio. Já não quero mais estar aqui. Quero o seu barulho, sua vibração, o seu calor.

Então, por causa de uma avaria em uma bomba de refrigeração que me obrigou a ter que fazer o reparo externamente, eu me vi livre das ferragens e computadores pela primeira vez em tanto tempo. Olho para toda aquela amplidão que está em minha frente e ouço uma voz me chamando. Estico meus braços na ânsia de que essa distância diminua e eu possa chegar um pouco mais próximo de você. E então eu não aguento mais perco o controle. Não há nada mais que me impeça. Eu me lanço lentamente em sua direção para por um fim nisso.

Afinal, eu iria morrer de saudade de qualquer jeito.

Rosto

O seu rosto.

A visão mais bela que eu já pude ter.
A coisa capaz de prender meu olhar pelo tempo que quisesse.
O brilho que ele carrega iluminaria até as profundezas do inferno.
Perdi as contas de quantas vezes te olhar melhorou meu dia.
E ao fechar meus olhos a noite, era como se você estivesse olhando pra mim.
De tanto olhar, acabei te gravando em minha retina.
Olhava o seu rosto e sabia que era feliz.

Mas, agora, o seu rosto me incomoda.
Já não consigo lembrar dos traços, da forma do sorriso, do olhar arrebatador.
Por mais que eu force, não consigo visualizar o que um dia era o motivo que me fazia sorrir ao acordar.
A imagem que outrora se formava quase que como instinto, agora é apenas um borrão difuso em minha mente.
Mas sabe o que é mais triste?
É que não faz nem dez minutos que passei por você e te cumprimentei.

Realidade alternativa

E se existirem universos paralelos?

E se em outra realidade eu for um criminoso, ou um rockstar? Eu posso nesse exato momento estar, em outro mundo, roubando um banco, ou fazendo o almoço, talvez esteja trabalhando na roça... Imagina se toda vez que uma pessoa pensa em "algo que poderia ter sido", na realidade ela está tendo um vislumbre de uma outra vida que está vivendo no exato momento, numa linha de tempo completamente diferente?

Nós temos tantas opções de caminhos que podemos seguir, mas a vida nos obriga a escolher um. E na sua linha do tempo é posto um ponto que indica o caminho que você seguiu. Então, num universo paralelo você escolheu o outro caminho e muito provavelmente está fazendo uma coisa completamente diferente de "estar na frente do computador lendo um texto". Imagina as possibilidades? As escolhas que você não fez nesse universo, você fez no outro, que levam a outras escolhas, que levam a outras realidades, num ciclo quase infinito...

Mas eu tenho certeza que mesmo que existam outras realidades, existe também uma centelha de certeza dentro de nós que nos fará, mesmo vivendo outras vidas, mesmo sendo pessoas diferentes do que somos agora, repetir um mesmo erro em todas elas.