Atrás/Além

Uma vez, estava numa festa e, entre as pessoas que estavam no grupo, estava uma psicóloga, esposa de um amigo.

Depois de muita bebida e risada, ela sentou do meu lado e começamos a conversar sobre música. Ela me perguntou qual era a minha relação com música, já que tinha percebido durante a noite que eu era a pessoa que reagia quando alguma música diferente tocava, que parecia ser a única pessoa que conhecia o que estava tocando. Então falei que a minha memória mais antiga de quando era criança, era uma lembrança de acordar 5 da manhã do domingo, correr pra sala e ligar o rádio, pois era a hora em que estavam tocando músicas que você normalmente não ouviria durante o dia. E esse foi um traço que permaneceu forte em mim, e que era incrível a sensação de ouvir uma música pela primeira vez e dizer "que música do caralho".

Aí ela me fez uma pergunta que eu, a princípio, achei um tanto estranha:

- Você já se tocou ouvindo uma música?

- Me toquei?

- É, se masturbou. Por isso tudo que você tá falando, a música tem muito impacto em você, então é normal que ela desperte emoções intensas em você, e prazer é uma delas.

-...não, nunca aconteceu isso não, mas é um ponto bem interessante, nunca havia pensado nisso.

Daí outras pessoas se juntaram a nós e a conversa acabou mudando de rumo. No fim da noite, quando cheguei em casa, lembrei da conversa e cheguei a conclusão de que psicólogo pode ser viajado demais. Já tinha acontecido de chorar em algum show, pela emoção de estar vendo um artista que gostasse muito, ou chorar porque a música estava relacionada a alguém e como eu não estava num momento bom, acabou acontecendo, mas não pela música, apenas. 

Até que um dia, num show, sozinho entre milhares de pessoas, O Terno começa a tocar Atrás/Além, uma música que já havia ouvido várias e várias vezes. Enquanto a música tocava, eu cantava baixinho e curtia cada momento. Quando a música terminou, enquanto as pessoas aplaudiam, eu percebi que estava levando a mão ao rosto para enxugar as lágrimas. E ai senti o rosto quente, eu provavelmente havia chorado o tempo inteiro sem me dar conta. Se alguém me perguntar o motivo, eu nunca saberei responder. Não estava abalado nem nada, não estava pensando em alguém naquele momento em específico, a música só veio, bateu e foi embora. Foi um momento de extrema emoção que durou pouco menos de 5 minutos.

Ai eu lembrei da conversa com a psicóloga. "É, se dá pra chorar por uma música, dá pra gozar também". pensei enquanto ria e curtia o resto do show.

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