Química

— Mais uma, por favor.
— Essa é qual, sei lá, a sua décima?
— Terceira. Décima terceira.
— Toma. Mas vai devagar, eu não quero ninguém morrendo aqui não.
— Relaxa. Eu não vou morrer. Não agora.
— Hoje tá difícil, hein...
— Ô. Você também não tá ajudando muito.
— Que foi?
— Eu já tô naturalmente na merda e olha o tipo de música que você tá colocando. Vai deixar o lugar inteiro como eu.
— Vou te confessar que também não tô num bom dia não.
— É, eu notei. Mas não quis falar nada porque sempre tinha gente perto, então fiquei aqui num estado pior que o seu e assim você poder disfarçar sem nenhum problema.
— Tem dia que a gente não tá pra falar. Hoje é um desses.
— É. E pega mais uma.
— Deixa eu mudar essa músi- caralho... Olha pra mim, quantos dedos tem aqui?
— Vai logo.
— É nessas que dizem que uma pessoa pode morrer de tristeza. Toma.
— Por isso que tô bebendo. Tristeza é questão de química. Álcool é química. Então é só misturar que dá uma reação diferente. 
— Ou potencializa o que já tem. Pô, sem condições de você ouvir essa música, vou pular.
— Não, deixa tocar. Tá todo mundo curtindo.
— É, e antes dela acabar, você se mata,
— Que nada. Tudo bem que toda vez que **** ******* ** ****** ** ***** ******...
— ...
— …Que foi?
— Me diga você.
— ... É... essa é a minha última, né?
— Ainda bem que você concorda.
— Vê quanto deu.
— Tá aqui. Fica aí, já já eu encerro aqui e te dou uma carona.
— Relaxa, eu vou andando. Toma.
— Vai chegar vivo em casa?
— Quando foi que eu não cheguei?
— Então vai, mas cuidado, e me dá um sinal quando tiver me casa pra eu não me preocupar.
— Tá, tá... Tchau. E... obrigado.
— Que é isso. E vê se melhora essa cara.
— Você também. Amanhã venho ver se melhorou mesmo.
— Até amanhã, então.

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