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Do nada

No último dia do ano,
do nada,
eu acabei me fazendo perguntas
que eu não sei se quero 
descobrir as respostas.

Equilibrar

Eu já senti a sua falta o suficiente para umas três vidas, e eu não fiquei no teu beijo por um minuto.

Então, acho que tá na hora da gente equilibrar um pouco as coisas.

Brilho

De tanto viver nas sombras, meus olhos ainda não se acostumaram bem com o brilho que a vida tem sob a luz do sol.

Valsas

Percebi que escrevo valsas demais.
É como se minha vida fosse um grande salão, e eu o preenchesse com a melodia solitária das músicas que eu canto, mas que ninguém jamais irá ouvir.

Oi

Vez ou outra eu me pergunto
se toda noite eu também 
dou uma passadinha em sua mente
pra te dar um “oi” antes de dormir.

Eclipse

Por mais que não estejam juntos
a lua se ilumina só de ver o sol brilhar.
E, quando os dois resolvem se encontrar,
mesmo que por um breve instante,
é lindo demais vê-los namorar.

Ruby

Como o personagem do filme,
eu tento, desesperadamente, escrevê-la,
na esperança de que ela ganhe vida
e possa receber o meu amor.

Éramos dois

A gente sempre viveu feliz
Tínhamos nossa vida tranquila.
Mas, de repente, tudo mudou.

Éramos nós dois.
Só que agora não somos mais.

Mal posso esperar pra ouvir o que você vai dizer, depois de descobrir que agora seremos três.

Entregar

Saudade
é quando tem tanto amor
dentro do meu peito
e eu não posso te entregar.
Então eu guardo comigo
até poder te encontrar.

Cerveja

Eu nunca mais
bebi cerveja do mesmo jeito.

É que fica difícil apreciar,
já que a última vez
que ela me deu prazer,
foi no dia que eu sentir o sabor dela
vindo da sua boca.

Estrelas

Perdi a conta
de quantas estrelas eu contei
deitado em tua cama,
já que quando deitei nela
eu fui parar no céu.

Van Gogh

Do que adianta
dar valor a alguém
que nunca chegou a saber
que era digno
de merecê-lo?

Fantasma

Nunca fui 
de acreditar 
em fantasmas,
mas fui obrigado
a ter que conviver
com a assombração,
em cada cômodo dessa casa,
da vida que nós tínhamos
até o dia em que você partiu.

Para mim

Os últimos meses do ano me deixam triste.

Geralmente quando chega novembro, a melancolia e a tristeza vão se aproximando mansamente, e fazem morada no meu peito. Não sei dizer qual é a causa disso. Não sei se é a sensação de encerramento que vem com os últimos dias do ano, só sei que sempre bate. Muitas vezes eu conseguia disfarçar e não deixar esse sentimento me afetar, mas dessa vez não deu. Dessa vez a sensação veio bem mais cedo, e bateu com força. 

Mas nem sempre foi assim. Quando era pequeno, eu adorava essa época do ano. Quando chegava outubro, eu já ficava feliz. Novembro, então, nem se fala. E dezembro, todo dia era como se fosse natal. Ficar olhando a árvore iluminada, a felicidade de abrir presentes...

Hoje esses sentimentos são lembranças distantes. Hoje tudo é cinza.

E eu tô cansado.

Eu só quero poder descansar, quero que os dias bons não sejam só dias, mas semanas, meses, anos bons.
Não quero ter que dormir rezando para não sonhar, não quero acordar pensando que vai ser só mais um dia para apenas existir.

Eu precisava colocar isso pra fora.
Precisava não apenas falar.
Palavras morrem no momento em que a boca se fecha, palavras podem ser esquecidas. 
Mas o que está escrito, não.

Escrever é a única coisa que ninguém vai poder me tirar, então eu escrevo isso por mim. Para mim.

Sol

Os olhos não estão preparados
para olhar diretamente,
já que de tão intenso e poderoso
pode até cegar.

Mas é muito bonito de ver
quando se vai
e quando vem também.

Química

— Mais uma, por favor.
— Essa é qual, sei lá, a sua décima?
— Terceira. Décima terceira.
— Toma. Mas vai devagar, eu não quero ninguém morrendo aqui não.
— Relaxa. Eu não vou morrer. Não agora.
— Hoje tá difícil, hein...
— Ô. Você também não tá ajudando muito.
— Que foi?
— Eu já tô naturalmente na merda e olha o tipo de música que você tá colocando. Vai deixar o lugar inteiro como eu.
— Vou te confessar que também não tô num bom dia não.
— É, eu notei. Mas não quis falar nada porque sempre tinha gente perto, então fiquei aqui num estado pior que o seu e assim você poder disfarçar sem nenhum problema.
— Tem dia que a gente não tá pra falar. Hoje é um desses.
— É. E pega mais uma.
— Deixa eu mudar essa músi- caralho... Olha pra mim, quantos dedos tem aqui?
— Vai logo.
— É nessas que dizem que uma pessoa pode morrer de tristeza. Toma.
— Por isso que tô bebendo. Tristeza é questão de química. Álcool é química. Então é só misturar que dá uma reação diferente. 
— Ou potencializa o que já tem. Pô, sem condições de você ouvir essa música, vou pular.
— Não, deixa tocar. Tá todo mundo curtindo.
— É, e antes dela acabar, você se mata,
— Que nada. Tudo bem que toda vez que **** ******* ** ****** ** ***** ******...
— ...
— …Que foi?
— Me diga você.
— ... É... essa é a minha última, né?
— Ainda bem que você concorda.
— Vê quanto deu.
— Tá aqui. Fica aí, já já eu encerro aqui e te dou uma carona.
— Relaxa, eu vou andando. Toma.
— Vai chegar vivo em casa?
— Quando foi que eu não cheguei?
— Então vai, mas cuidado, e me dá um sinal quando tiver me casa pra eu não me preocupar.
— Tá, tá... Tchau. E... obrigado.
— Que é isso. E vê se melhora essa cara.
— Você também. Amanhã venho ver se melhorou mesmo.
— Até amanhã, então.

Brega

Quando notou 
que a música 
começou a fazer sentido,
e que todo dia
o céu estava lindo,
percebeu que
todo romance de cinema
estava completamente certo:

tudo é brega 
até não ser mais.

Paisagem

Ouvi que, ao se fechar os olhos e imaginar uma paisagem bonita, por mais que imaginemos cada detalhe, raramente nos vemos como parte dela, somos apenas a pessoa que observa de fora, e isso é como um castigo que inconscientemente impomos a nós mesmos, como se não merecêssemos fazer parte do cenário.
Desde então, não paro de pensar nas inúmeras paisagens que imaginei e jamais estive.

Inferno astral

Mas tem que ser muito arrombado
pra que, 
do alto do espaço sideral,
se olhe pra pequeno ponto em um planeta qualquer
e se pense:
  
- Vou ferrar a vida desse aqui.

O Cavaleiro Verde

Tem sempre um momento 
que se precisa aceitar os termos do jogo, 
seja pra encontrar o seu valor 
ou pelo prazer do desafio.

Pois, maior que a covardia,  
é o entendimento do motivo que nos faz 
manter a cabeça no lugar.