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Laço

É impressionante a quantidade de memórias que eu tenho com você.

Você pode não acreditar, mas eu não sou a pessoa que lembra de tudo normalmente. Só que desde o dia que a gente se conheceu, minha mente achou de querer guardar cada pedacinho de momento que a gente já viveu. É tanta coisa, tanto pequeno detalhe que eu me surpreendo de lembrar.

Um emaranhado de memórias que se entrelaçam para me mostrar que em todos os momentos você sempre esteve, até mesmo sem estar. Seja lembrando de você por causa de uma uma musica que tocou, um filme que passou, uma coisa que aconteceu. Sempre vai ter algo pra me lembrar de que você faz parte da minha vida, e que um dos motivos de ela ser boa é por você está nela. E sei que mesmo estando longe, para estar perto de você eu só preciso fechar os olhos por um segundo, para que eu possa me lembrar porque é bom ser seu amigo.

Por sua causa, eu posso dizer que finalmente entendi o que é ter um laço com alguém.
E que os verdadeiros laços que a gente constrói com alguém são, de fato, inquebráveis.

Coragem

Era uma rua estreita, mas era movimentada.

As mesmas caras passavam por lá, sempre com rostos apáticos.
Mas havia uma hora do dia em que tudo mudava. Havia um momento em que todo mundo parava, e era quando ela saia de sua casa, para ir trabalhar. A luz que refletia nos cabelos dourados dela coloriam a rua, e traziam calor. A cada passo que ela dava, a luz se expandia ainda mais e fazia despertar as mais diferentes emoções daqueles que passavam por ela, que andava suavemente, como se não tivesse ciência do efeito que ela causava nas pessoas. Era assim todo santo dia.

-

Um dia, ele resolveu fazer um caminho diferente do habitual, e passou naquela rua que ele sempre evitou por causa da quantidade de pessoas que por ali transitavam. De repente, ele nota que todas as pessoas começaram a agir de forma diferente. Fica tão atento a mudança de comportamento das pessoas que esbarra em alguém. No momento em que ele vai prestar socorro e se desculpar, ele a vê. E para, arrebatado pela visão que acabou de ter. Ela o nota, e não consegue conter um sorriso ao ver a expressão atordoada na face dele. Enquanto ela se afastava, e a luz sumia. Ele voltava a sí, finalmente entendendo o que havia acontecido com aquelas pessoas ao seu redor, que aquela altura já haviam voltado aos seus afazeres costumeiros. E ele só pensava em uma coisa: tinha que voltar lá.

E assim se seguiram os dias, com ele passando sempre por ali, no mesmo horário. E todas as vezes era desarmado pelo sorriso dela, e isso o impedia de fazer algo além de apenas ficar com uma expressão abobalhada toda vez que passava. O tempo foi passando, e um dia, ela não apareceu. Ele achou estranho, mas resolveu voltar no outro dia. E nem sinal dela, nem naquele dia, nem nos dias que se seguiram. E ele percebeu que a rua, que outrora era movimentada, começou a ficar deserta. Sem entender, perguntou a um senhor, que vendia jornais em frente da casa dela, se ele tinha alguma ideia do que havia acontecido.

- Ela se mudou, rapaz. Casou-se e foi embora desta rua. Sempre notei que você a esperava passar, mas nunca se dirigiu a ela. Por quê você não o fez? - disse o homem, curioso. Ele explicou que tentava, mas era em vão, não conseguia reunir forças e falar com ela, e que então havia se contentado com o simples fato de vê-la passar. E o senhor lhe contou que o homem com quem ela havia casado, na primeira vez que a viu, perguntou seu nome. Ao ouvir isso, ele olhou tristonho para a casa que ela morava, logo em seguida baixou a cabeça e foi embora se amaldiçoando por não ter feito nada.

Ah, se eu tivesse tido coragem, pensou.

Devia

Eu devia estar dormindo.
Eu devia não estar aqui,
escrevendo palavras a esmo, na espera do sono que tarda a chegar.

Eu devia me preocupar com a métrica ou a estética,
para que estas palavras não destoem
das que aqui estão, e das que irão chegar
(se é que irão.)

Eu devia não estar pensando agora no que pensei o dia inteiro.
E até não queria,
mas os pensamentos me sequestram,
e me impedem de escapar.
 
Eu devia ter dito sim.
Não. 
Devia ter ido embora.
Ficado.

Só devia.



Se

Se tu me desse liberdade,
A ti eu me prenderia.

Fingir

Se você quiser 
fingir que eu sou o seu bem,
eu não me importaria
em fingir, por um dia, 
que você é o meu, também.

12º

Você pode olhar pra mim.

Mas será que você 
realmente
me vê?

Esperando

Ele estava inquieto.

Sentava no sofá, mas não ficava ali por muito tempo. Levantava e andava de um lado para o outro, vagava pelos cômodos da casa. Voltava pra sala e olhava para a porta, na esperança de vê-la se abrir.

Enquanto via o seu pequeno amigo aflito, o rapaz andou até ele lentamente e o fez um carinho, que foi respondido com um latido e um abano de rabo. Ao se sentar no chão ao lado do amiguinho, ele falou, tristonho:

 - É, pequeno, é melhor se acostumar. Ela não vai mais voltar.

Queimou

De tanto brincar com fogo,
quando ele me queimou
eu nem senti.

E me consumiu.

Ópio

Eu evito ceder hoje,
porque amanhã 
eu sei que irei querer mais
e não saberei o que fazer
se eu não tiver.

?

Quando tu me pediste um coração,
eu não tinha um para entregar.

Como poderia te dar algo que já era teu?

Pôr do sol

Ele estava reparando que ultimamente o pôr do sol tem ficado muito mais bonito, e ficou se perguntando qual seria o motivo: se era a estação do ano, o clima mudando...

Então ele pensou, pensou e riu, porque percebeu que sabia o motivo.

- Ele se põe pros lados da casa dela, e é essa a hora que ela sai pra passear. Quem é que não ficaria feliz só de saber que tem a oportunidade de a ver passar?

Trem

Uma vez, quando eu era pequeno, eu queria um trenzinho de brinquedo. Via a caixa, com uma arte bonita do trem em movimento, e pensava que devia ser incrível brincar com ele.
Quis bastante, mas nunca fui de pedir, então só olhava a distância o brinquedo nas prateleiras, me imaginando nas várias aventuras que eu viveria com aquele trem, já que no momento aquela era a única coisa que me era possível.

Até que um dia, eu o ganhei. E no mesmo instante, cheio de felicidade, já abri a caixa. Tirei os trilhos, retos e curvos, e fui montando cuidadosamente o percurso que o trem percorreria.
Então era a vez do trem. Tirei e encaixei cada um dos vagões, coloquei uma pilha, o coloquei nos trilhos e liguei. Ali estava ele, em movimento pelo caminho, seguindo, e eu observando atentamente, feliz. Deu uma volta, duas, três… E era isso. Ele girava, mudava o caminho, caso se mudasse uma chave para a troca dos trilhos, e só. Enquanto ele girava, girava, eu me desinteressava, pois não havia nada que aquele brinquedo pudesse fazer além daquilo.

Claro, eu era criança, então logo arranjei novas formas de utilizar o trem nas minhas brincadeiras, mas foi ali, com 6 ou 7 anos que eu aprendi que tem coisa que é melhor apenas olhar a distância, porque talvez, quando a gente entra em contato, seja algo apenas superficial e nem tenha tanta graça assim.

Audição

Já havia se passado algum tempo e ele não conseguia enxergar ou se mover. Só podia confiar na audição, já que era o único sentido que ele podia confiar naquele momento. Mesmo com o cérebro instintivamente concentrando todas as atenções em captar algum som, não conseguia ouvir nada. Ele sabia que não estava só, mas o fato de não conseguir saber o que estava acontecendo o deixava quase que desesperado.

Então, ele começa a ouvir passos, ainda que distantes. Na medida que se aproximavam, o seu coração começava a bater mais forte e a respiração ficou acelerada. Quanto mais perto os sons, mais ele ficava inquieto, até que tudo ficou em silencio novamente. Então, antes que ele pudesse esperar, sentiu como se uma descarga elétrica o tivesse atingido no peito. Atordoado, ele tentou se inclinar para frente, mas não conseguiu. Estava bem amarrado na cadeira. Então, sentiu o que na verdade era a ponta de um dedo, que começou a descer lenta e levemente pelo seu peito nu. E ao sentir os dedos ultrapassarem o seu abdome, ela se inclinou e sussurrou em seu ouvido:

- Agora você existe apenas para me satisfazer.

Ele quis responder, já que sabia que estava completamente entregue pra que ela pudesse fazer o que bem desejasse, mas a única coisa que conseguiu foi estremecer de excitação.

Pra onde devo ir

Eu não me arrependo 
do caminho que fiz 
para chegar até aqui.

Mas ultimamente 
ando sem saber pra onde devo ir,
e extremamente pensativo
sobre o que encontrarei no fim.

Eu sei que você me viu

Nós sempre tivemos uma relação que eu nunca soube definir. 

Sim, éramos amigos, sempre fomos. Mas havia algo no ar. Sempre que a gente se encontrava, em algum momento o clima ficava diferente. Um olhar diferente, um flerte. Não sei se era apenas a bebida falando por nós ou se realmente havia algo ali, se sentíamos algo, nunca chegamos a saber. Era uma coisa velada. E a vida seguiu seu fluxo, e nossos caminhos se distanciaram. Os círculos de amigos mudaram e nós mudamos também. Você casou, mudou de cidade, perdemos o contato de vez. E tudo bem, era pra ser. Eu nunca mais pensei em você, e tenho certeza que você nunca mais pensou em mim também. Então era natural dizer que você era a última pessoa na face da terra que eu esperava encontrar.

Uma noite completamente igual a todas as outras, quando eu encontro o meu grupo de amigos de sempre, e decidimos na hora pra onde vamos. Não esperava que fosse chegar em um lugar e, no meio de tanta gente e com pouca luz, pudesse olhar e dar de cara com você, ali. É engraçado como o nosso cérebro funciona, como coisas que julgávamos completamente esquecidas são ativadas em uma fração de segundo. Ao vê-la ali, lembrei de todas as noites de conversa, os flertes discretos, as risadas. E na hora eu senti uma vontade imensa de levantar do meu lugar, atravessar todo o salão e te cumprimentar. Mas não o fiz. Você casou, e seu marido estava lá, junto de todos os seus amigos. E minha vida seguiu também. Eu não cheguei a casar, mas eu conheci alguém, e algo está me dizendo que dessa vez a coisa vai andar. Mesmo não tendo nada concretizado, mesmo ela não estando comigo naquela hora, não é algo que eu possa jogar fora. Aliás, eu nem quero. Então voltei a minha atenção aos meus amigos. Mas por um momento eu tive certeza que você estava olhando pra mim. Eu sei que estou bem diferente de antes, mas ainda sou eu. Eu sei que você me reconheceu.

Aí a noite acabou. 

Eu sei que daqui a algum tempo eu tornarei a não lembrar de você, e provavelmente não vou nem lembrar dessa noite. Mas por mais que não tenhamos nos falado, eu sei que você me viu também.

Tempo Perdido

No final dos anos 80, era comum as emissoras de TV saírem do ar durante a madrugada e ficarem sem sinal até amanhecer, só voltando a funcionar por volta das 7 da manhã. E durante esse tempo até a volta do sinal de TV, alguns canais transmitiam sinais de rádios, onde se tocava o que não se ouvia por aqui com frequência: musicas internacionais, trilhas de filmes... E meus pais contam que desde pequeno, eu acordava quando estava amanhecendo, colocava uma almofada na frente da TV, ligava e ficava sentado, ouvindo e cantando as músicas, e fazia isso religiosamente, tanto que em uma dessas vezes meu pai colocou o despertador pra tocar mais cedo, pegou um gravador e se escondeu atrás de uma das cortinas da sala, pra que pudesse gravar a minha cantoria sem que eu percebesse, já que eu poderia ficar com vergonha caso o visse na sala.

Eu tive essa relação com a música desde pequeno, e isso nunca mudou. Cresci ouvindo muita música, cantei em coral, cantei em igreja, até cheguei a cantar em um casamento quando era moleque, e obviamente, queria ter uma banda de rock. Aprendi tocar violão só pra poder tocar as músicas que gostava, e o sonho da banda era apenas um sonho mesmo. Eu sabia que das minhas limitações, que não era apenas saber tocar algumas músicas, a coisa era muito mais profunda, e depois de crescido, os traços da personalidade já não eram mais os mesmos de quando eu era adolescente e era fácil me apresentar na frente de uma plateia. 

Um dia, eu estava numa festa em que uma banda de uns amigos, que era até conhecida por aqui. estava tocando. E aquela apresentação deles estava muito empolgante, todo mundo cantando junto, uma energia enorme. Ai um dos meus amigos olhou pra mim e me chamou. Eu corri, já que pensei que ele ia pedir pra que eu pegasse algo pra ele, ou que estava com algum problema. Ele tirou o violão e disse "toca". Eu olhei pra ele por um instante, sem reação, e ele insistiu: "toca. É Tempo Perdido". Eu disse a ele que não sabia os acordes. Eu realmente não sabia. Era uma música que eu sempre ouvia, mas nunca havia parado pra aprender. Um outro amigo chegou junto e disse "olha pra mim, eu te digo os acordes". E assim eu peguei o violão, e estava tremendo. Respirei fundo, olhei pro meu amigo, e comecei a tocar. A medida que a música progredia, os acordes dela eram cravados na minha mente enquanto eu aprendia ali, na hora. E eu que comecei a música tenso, estava completamente entregue a explosão ao fim dela. A energia que percorreu meu corpo naqueles poucos minutos foram suficientes pra que eu nunca mais pudesse esquecer daquele momento. 

O tempo passou e eu até cheguei a ser parte de uma banda, mas toda vez que eu escuto Tempo Perdido, sempre me lembro da vez que por um momento, eu me senti uma estrela do rock.

Mudar

Hoje é um daqueles dias em que fico pensando no que devia ter feito, dito ou evitado, e no quão diferente estaria a minha vida se eu não fosse tão eu.

Mas não dá pra voltar e mudar o que aconteceu. 
Só dá pra mudar a mim.

Pessoas

Tem pessoas que nasceram pra ficar juntas, e um dia se encontram;
que nasceram pra ficar juntas, mas que nem chegarão a se encontrar;
pessoas que não nasceram pra ficar juntas, mas estão mesmo assim,
e pessoas que por mais que se deseje, nunca ficarão.

Quinta-feira

As coisas já não eram como antes. Ela sabia.

Ele também já havia notado que as manhãs já não tinham o mesmo brilho de antes, que os sons já não eram os mesmos. Mas havia uma história ali, havia toda uma vida, que em seus momentos altos e baixos, os dois viveram juntos, então simplesmente virar as coisas e ir embora era um desfecho muito infeliz diante de tudo que eles viveram.

Eles não estavam se deixando por ódio, só perceberam que o que existia não era mais o suficiente para continuarem juntos. Por isso resolveram se despedir apropriadamente. E assim, levados por lembranças no fim da tarde daquela quinta-feira de outono, foram se encontrar no mesmo lugar em que haviam se visto pela primeira vez. Caminharam pelo parque, cada um contando como havia sido o seu dia, e foram ao restaurante em que ele a levou a primeira vez. Era um lugar bonito, de iluminação fraca, com algumas mesas ocupadas por casais apaixonados, e um piano de cauda nos fundos, que era tocado por um jovem rapaz. Enquanto a noite caía eles conversavam. Não tentavam descobrir porque tudo havia chegado até ali, não era necessário. Eles apenas falavam coisas bobas e dos bons momentos que eles viveram juntos.

Depois de algumas taças de vinho e muitos sorrisos, o rapaz do piano que havia dado uma breve pausa, torna a tocar, e os primeiros acordes de "As time goes by" soam pelo restaurante. Ele deixa escapar um sorriso, a olha e a convida para dançar. Ela fica receosa, já que não havia mais ninguém no meio do salão. "Desde quando você se importa com a falta de pessoas dançando?" ele pergunta, e ela, vencida, vai. E então eram apenas os dois, sendo guiados pela melodia que saía do piano, sendo observados pelos outros casais que estavam naquele restaurante, e assim terminou.

Os últimos passos, da última dança, da última canção de um disco que não irá mais tocar.

Dentro

Já dividimos tantos momentos
Tantos segredos, tanta vida, 
que sobrepujamos a lei da física
e mais que ocupar o mesmo espaço,
estamos dentro um do outro.